ARTIGO SOBRE A AGUÁ: “As águas de Cheshvan”

ARTIGO SOBRE A AGUÁ: “As águas de Cheshvan”

“As águas de Cheshvan”
O segundo mês do ano judaico é chamado “Cheshvan”, este mês tem uma conexão natural com chuvas e aguaceiros. No dia 17 deste mês do ano 1656 desde a criação do mundo, começou o dilúvio relatado em Gênesis. Todos os anos os moradores de Israel acrescentam em suas preces a partir do dia 7 de Cheshvan, um pedido especial pelas chuvas; pois este é o momento onde se planta em Israel na expectativa das primeiras chuvas do outono. A vida na terra depende da presença de água potável. Por isso muitas orações fixas e outras provisórias, apelam pelas chuvas, que sejam suficientes, que sejam espalhadas e benignas e que não causem destruição. A oração fixa é chamada “Birkat Hashanim” (lit. Bênção dos Anos), onde pedimos alimentação farta ao longo do ano. Nesta parte é recomendável pensar nas Mitzvot que fazemos com vegetais, tais como: trigo para Matzá, Etrog e Lulav que são as plantas usadas para a festa de Sucot (1) e vinho para Kidush. A oração é recitada diariamente e faz parte do conjunto de pedidos denominado “Shmonê-Esrê” ou “Amidá”. O Sumo-sacerdote, no momento mais sublime do Yom Kipur, pedia entre outras coisas, por chuvas. Mas o povo só começava a pedir chuva quando os visitantes que vinham a Jerusalém para a peregrinação durante Sucot, já estivessem de volta em suas casas; e esta é a razão pela qual pedimos chuvas a partir do dia sete de Cheshvan, a data na qual mesmo aquele que vieram da remota Babilônia, já estavam de volta, acomodados em suas casas.
Na ocasião de falta de chuvas há no Talmud um tratado que descreve em detalhe como proceder, o Tratado de Ta’anit (lit. jejum). Ainda hoje em dia, quando falta chuva, assim como no caso de devastação por chuvas, se junta dez judeus para realizar orações específicas para estas desgraças. (Ainda me lembro, como na Yeshivá em Petrópolis onde estudei, praticava-se uma cerimônia especial para que parem as chuvas que castigam a serra carioca freqüentemente.)
Existem no Talmud algumas histórias sobre a nossa dependência da Mão Divina que faz chover, a seguir duas delas:
Certa vez passou um inverno onde não houve chuvas em Israel. As pessoas da época conheciam um justo chamado Choni cujas orações eram aceitas nos céus e enviaram a ele um pedido para que orasse por chuvas. Choni desenhou um círculo no chão e implorou a D’us por chuvas, em sua súplica ele incluiu um juramento que não sairia do círculo enquanto não chovesse. Naquele momento veio uma chuva fraca como se fosse para permitir que Choni saísse do círculo. Porém, Choni disse a D’us: “Esta chuva não é o que estou pedindo; eu peço uma chuva que preencha todos os poços e depósitos de água.” Logo passou a chover gotas gigantescas e Choni novamente dirigiu-se a D’us: “Esta não é a chuva que estou pedindo, o que peço é uma chuva de carinho, uma chuva benigna e farta.” Em seguida a chuva passou a cair de forma razoável. Porém a chuva não parava a tal ponto que a cidade de Jerusalém ficou alagada. Então Choni, diante desta calamidade, fez uma oração excepcional, já que a regra geral é que não se deve pedir que pare a benção. Choni disse a D’us: “O Teu povo Israel que tiraste do Egito, não tolera demasiada desgraça e nem demasiada bênção. Se Tu ficas irado, eles não suportam. Se Tu deres a eles muita benção, tão pouco eles a suportam. Que seja a Tua vontade que pare a chuva e que venha fartura ao mundo”. Logo se espalharam as nuvens a parou a chuva. (Fonte: Talmud, Ta’anit 23A)
Certa vez um homem justo brigou com sua esposa por ter feito caridade apesar de serem muito pobres. Ele então orou para que D’us lhe ajudasse. Ao dormir em Rosh Hashaná, ele sonhou estar ouvindo uma conversa entre dois espíritos de meninas falecidas de sua vizinhança. Uma delas chamava a outra para assistir como D’us julga o mundo para o ano seguinte. A outra menina recusou-se dizendo: “não posso ir por que fui sepultada de uma maneira desprezada, mas vai tu e me conte depois o que ouviste.” A primeira menina foi e depois voltou e contou: “Ouvi no Tribunal Celestial que todas as plantações do início do outono serão feridas pelo granizo.”
O homem levando em consideração o sonho semeou seu campo no meio do outono. Os campos de todos foram prejudicados com granizo e o dele se salvou. No ano seguinte ele pediu novamente ajuda de D’us e sonhou novamente com as duas meninas. Novamente uma convidou a outra a ir assistir a sentença anual do Tribunal Celestial e novamente a outra se recusou de ir, mas ouviu o relato da primeira, que desta vez contou que uma doença agredirá os campos que serão semeados no meio do outono. O homem seguiu novamente o sonho e desta vez semeou logo no início do outono. Assim enquanto todos os campos vizinhos sofreram perdas, o campo dele teve uma boa produção. A esposa do justo percebeu que algo estava protegendo os campos de seu marido e lhe indagou a respeito disso. O homem lhe relatou os sonhos em detalhes.
Passado algum tempo, a esposa do justo brigou com a mãe da menina que foi sepultada desprezadamente. Em sua fúria ela não se conteve e a insultou dizendo: “Nem a tua filha sepultaste com a devida honra.” No ano seguinte, o homem repetiu a sua oração, porém desta vez sonhou como a segunda menina dizia a outra: “Pare de falar comigo, pois nosso segredo já chegou aos ouvidos de pessoas vivas.” (Fonte: Talmud, Berachot 18B)
As águas além de ser alimento, têm um significado espiritual. A água é o elemento que gera crescimento e prazer. O mundo contém uma natureza onde o ser saciado, fica feliz consigo mesmo; ele sente o prazer de existir, de ser o que é. Esta sensação é sadia e vale para as plantas que germinam, brotam e crescem em contato com a água. A mesma coisa vale para os animais. O ser humano, também compartilha esta sensação. Mas para o homem é importante distinguir entre a água, o prazer sadio e que lhe faz crescer as qualidades humanas, e entre a tendência corporal que valoriza somente o mais tangível. Existe a possibilidade de o homem estar feliz apenas com o seu corpo físico e suas sensações nas quais somos semelhantes aos seres dos reinos vegetal e animal. Esta pessoa estaria deixando de prestar honra e valor às suas qualidades mentais e espirituais. Por isso segundo a Torá, a pessoa não deve se viciar em prazeres físicos desnecessários.
Outra aplicação da “tendência aquática” vale para a Torá (o ensinamento divino), e suas recomendações práticas: a Torá é comparada com a água; assim como a água corre de cima para baixo, a Torá desce desde as esferas celestiais para permear até mesmo o universo mais baixo, ela descreve numa linguagem terrestre, como tudo faz parte de D’us; como D’us considera que tudo faz parte d’Ele e de Seu prazer de ser presente, tanto na linguagem (2) abstrata da infinitude absoluta, quanto na linguagem dos mundos limitados e finitos. Assim como a água, que ao bater na pedra por muitos anos, penetra e fura, a Torá bate em nossos corações e os torna mais sensíveis e mais conscientes da presença da espiritualidade.
Ofereço os meus desejos para um ano de chuvas na medida certa para irrigar as nossas plantações e para abastecer as nossas cidades.
Rabino Shmuel Binjamini
(1) Veja mais sobre isso nesta publicação de 10/2014.
(2) Prefiro usar o termo linguagem para expressar a diferença entre as varias formas que a presença de D’us se manifesta.

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